Em 1907, vivendo em Paris, Rainer Maria Rilke escreveu para sua esposa, Clara, uma série de cartas que têm como tema central questionamentos artísticos: o trabalho em uma monografia sobre Rodin, a oportunidade de ver reproduções dos quadros de Van Gogh, comentários sobre as obras do Louvre e, sobretudo, Cézanne. A partir do dia em que visita a exposição realizada no Grand Palais, Rilke passa a fazer observações diárias sobre a vida do pintor francês, falecido um ano antes e ainda não consagrado, sobre os seus quadros e sobre a repercussão negativa que tiveram entre os críticos. O impacto que essa exposição teve sobre ele foi tão profundo, que mais tarde ele reconheceria Cézanne como a principal influência artística de sua poesia a partir daquela época.
O fato de Clara Rilke ser uma escultora, antiga aluna de Rodin, explica em parte a insistência em temas relacionados às artes plásticas, na correspondência entre os dois, mas a leitura das cartas mostra que o interesse do poeta por tais temas vai muito além dessa explicação. Mais do que comentar ou admirar os quadros, que toma o cuidado de descrever atentamente, ele narra os seus aprendizados e as suas descobertas artísticas, buscando correspondências entre a poesia e a pintura. Mesmo ao contar como foi um passeio pela cidade de Paris, ou como estava o entardecer visto da janela, suas observação ressaltam cada vez mais elementos pictóricos, ressonâncias e equilíbrios entre as cores; como se aos poucos fosse capaz de observar as coisas com os olhos de Cézanne.
Além de delinear uma compreensão rica e abrangente da arte no começo do século XX, Rilke nos transporta para muito perto das obras e mostra maneiras novas e inspiradoras de observá-las.





